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Política & Poder

O desafio de usar poucos recursos na campanha

Arquivo Geral

10/08/2014 10h02

Advogado de longa carreira, respeitado tanto pelo mercado quanto pela OAB, pela primeira vez disputando eleições, o candidato ao Senado do PSOL, Aldemário Araújo, se esforça para fazer uma campanha sem grandes recursos. Considerado uma possibilidade real de renovação no cenário político,  existe um motivo em especial para que Araújo aposte nesse modelo de campanha: ele não quer que doações influenciem um possível mandato. “Quando você tem contribuições de grandes grupos econômicos, cria-se a mais importante das interrogações: esse que se elege financiado representará que interesses?”, questiona. Por isso, Aldemário tenta fazer uma campanha “alternativa”, apostando até no que ele chama de comício domiciliar. Defende ainda não uma reforma tributária, e sim fiscal. 

Por ser procurador da Fazenda, o senhor possui conhecimento em tributação. Qual é o melhor jeito de se fazer uma reforma tributária?

 Acredito em uma premissa diferente do discurso que a gente escuta sempre, de que a carga tributária é alta e precisa ser reduzida. O que eu digo e, aliás, o que o PSOL diz, é que precisamos de uma reforma com justiça fiscal. Existe nesse País gente pagando muito tributo e outros pagando muito pouco. Quando você olha para a chamada carga tributária média, de 35% do PIB, você observa que boa parte da população trabalhadora paga mais do que 35%. A carga sobre o trabalho, quando você junta tributação sobre o consumo, imposto de renda, isso passa desses 35%. Por outro lado, em sete segmentos da sociedade os tributos são baixíssimos, como por exemplo, o mercado financeiro. Hoje, quem tem lanchas e helicópteros não paga IPVA. Em suma, é preciso aumentar a tributação sobre capital, patrimônio, especulação financeira e instituir o imposto sobre grandes fortunas, que a Constituição prevê desde 1988, mas nunca foi colocado em prática.  

Um mandato no Senado pode promover essa reforma?

Pode ajudar a fazer isso. A reforma tributária precisa passar pelo Congresso, votada na Câmara e no Senado. Não necessariamente na forma de emendas à Constituição, mas através de leis. Portanto, quanto mais mandatos parlamentares comprometidos com essas ideias, com esses interesses, mais fácil será aprovar a reforma tributária.

Essa é sua principal bandeira?

Não diria que é a principal, mas uma delas. Uma candidatura ao parlamento se insere em todas as discussões relevantes no País, de natureza econômica, social, políticas públicas, reforma política. Então, essa é uma das questões a serem levantadas. Por exemplo, a reforma política é um tema extremamente relevante e precisa ser enfrentado, mas precisa ser uma reforma efetiva e não esses cosméticos que o Congresso anda fazendo, de diminuição de tamanho de adesivo. Precisa ser uma reforma que consiga responder o anseio da sociedade de que você tenha representações políticas legítimas, que o eleitor se identifique. Isso passa por algumas definições importantes. Uma delas, que está cada dia mais evidente, é o financiamento de campanha eleitoral. Estamos acompanhando notícias cada dia mais estranhas sobre financiamento, quando você tem contribuições de grandes grupos econômicos financiando candidaturas, o que cria a mais importante das interrogações: esse que se elege financiado por esses interesses representará que interesses? Qualquer criança consegue identificar que os interesses defendidos no parlamento e no governo terão uma correspondência direta com o perfil do financiamento. O financiamento não pode ser feito por empresas. O ideal é financiamento público, combinado com a doação de pessoas físicas.

Como está a sua campanha, sem doações de empresas?

Como é possível fazer uma campanha sem gastos milionários? Primeiro, se você abolir cabos eleitorais pagos, um gasto absurdo hoje. A gente encontra pessoas nas ruas que dizem que estão recebendo até R$ 1 mil por mês. Aí você multiplica isso por 500 pessoas, por três meses. Se você suprime a campanha baseada em compra, com todas as letras, de lideranças comunitárias, se você suprimir as estruturas milionárias de marketing, é subtraída outra parte. Esses dois elementos suprimem 95% dos gastos de campanha. É possível se fazer uma eleição com material de propaganda – folders, panfletos – que são distribuídos pelo próprio candidato, por militantes e simpatizantes. Também temos uma atividade muito intensa de conversa com os eleitores. Eu costumo fazer o que nós chamamos de comício domiciliar. Fazemos uma quantidade enorme de pessoas, das mais variadas áreas, advogados, médicos, estudantes, até amigos e familiares. Aí discutimos políticas e propostas. Isso termina em uma campanha que não está vinculada a nenhum interesse que vá ser cobrado depois, fazer essa cobrança.

O senhor acredita que o PSOL ainda enfrenta a resistência por parte de pessoas que associam o partido a atos de vandalismo?

Acredito que sim. Já ouvi isso, embora com pouca intensidade. Até porque a grande mídia tentou fazer essa associação com o PSOL e movimentos anarquistas e black blocs. O partido entende que essas práticas políticas não são adequadas. O caminho do avanço social, institucional, político é o caminho da participação, mobilização, pressão. O partido sempre teve isso muito claro. O caminho é ajudar, colaborar com as mobilizações, a atividade política, a organização dos movimentos sociais. Esse comportamento de fundo anarquista não é o que o partido defende.

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