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Saúde do DF agoniza e implora por atenção

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Francisco Dutra e Raphaella Sconetto
redacao@grupojbr.com

É dever do Estado garantir o acesso à saúde de maneira universal, integral e gratuita. Na prática, porém, o Sistema Único de Saúde (SUS) acumula deficiências. Não é à toa que esse foi um dos apelos mais repetidos pelos eleitores – e prometidos pelos candidatos – durante as últimas eleições. No Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB) assumirá o Poder Executivo com a missão de melhorar a assistência.

Nesta reportagem, o Jornal de Brasília lista os principais desafios que o novo governador terá de enfrentar. Depois da saúde pública, cada semana, um tema será colocado em discussão nas páginas do JBr.

À primeira vista, é como um tiro no escuro. Atualmente gerida por Humberto Fonseca, a Secretaria de Saúde desconhece, por exemplo, o déficit de servidores e a quantidade de pessoas que estão nas filas aguardando cirurgias em Brasília. Especialistas elencam ainda outros problemas, como a falta de medicamentos, leitos fechados e a própria demora no atendimento.

A atenção primária é o item mais comentado e que divide opiniões. Reforçada no governo de Rodrigo Rollemberg, a atual cobertura é de 67,8% da população, com 530 equipes completas. A pasta compara que a abrangência era de 28,67% no início da gestão. O DF possui mais 58 equipes sem médicos e seis sem enfermeiro, totalizando 594. Para alcançar 100% de cobertura, são necessárias, no total, 782.

Apesar da ampliação de 39% na cobertura, Tiago Neiva, especialista em gestão de serviços e sistema de saúde, aponta que é preciso um atendimento efetivo para dar certo. “O governo pode multiplicar o número de hospitais por dez que, sem atenção primária efetiva, o problema não será resolvido”, ironiza. “O que é um sistema de saúde que funciona? É aquele em que a maior parte dos problemas é atendida e resolvida nas unidades básicas de saúde”, completa.

Para isso, Neiva cita que deve-se ampliar o horário de funcionamento das Unidades Básicas de Saúde para a noite e também fins de semana – além, claro, do número de servidores. “É um equívoco pensar que a atenção primária é principalmente preventiva. Sua principal função é resolver a maior parte dos problemas da comunidade”, defende. Segundo ele, esse modelo de gestão previne, identifica, trata quando possível e, se não, encaminha ao hospital. Depois de tudo isso, acompanha todos os pacientes.

Rubens Bias, conselheiro do Núcleo do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde do DF (Cebes-DF), admite que a ampliação da cobertura foi uma mudança importante, mas diz que o atendimento não melhorou. “O que aconteceu? Antes tinha mais especialistas para menos pessoas. Hoje temos mais serviços gerais para mais gente. Isso gera baixa resolutividade e dificuldade de acesso para o tratamento certo. Por exemplo, grupos para tratar hipertensos e diabéticos acabaram com a mudança do modelo”, critica.

Falta remédio e sobra gente nas emergências

Enquanto o atual governo comemora os resultados e enaltece que “a rede de saúde do Distrito Federal conta com uma estrutura consolidada para atendimento à população”, usuários sentem na pele a precarização da estrutura. Desde algodão a fitas de glicemia, insumos estão em falta nos hospitais. A própria Secretaria de Saúde reconhece que 55 medicamentos fornecidos estão em falta. Há também uma fila – em que o número é desconhecido – de pessoas que aguardam por um leito.

No Hospital Regional do Paranoá (HRPa), a porta da emergência vive lotada – cena comum por todo o DF. No começo do mês, quando a reportagem esteve no local, pacientes reclamavam da demora. Ali, uma mulher era carregada na cadeira do vigilante, na falta do equipamento adequado.

Morar na emergência

Pela segunda vez, o motorista Antônio Marim de Souza, de 57 anos, tentava uma consulta por conta de uma alergia. Depois de cinco horas de espera, pensava em desistir novamente.

“Estou com a pulseira amarela, mas me disseram que a prioridade é só a vermelha, porque lá dentro tem apenas um médico para atender todo mundo. Como ainda estou de pé, para eles ainda estou bem e não mereço atendimento. Mas se estou aqui é porque estou com problema”, desabafa.

Questionado sobre o que deveria ser priorizado pelo novo governador, Ibaneis Rocha, o motorista listou a contratação de médicos e “boa vontade no atendimento”. “É minha obrigação morar no hospital e ficar aqui até o dia que eles vão ter boa vontade para me atender? Falta uma administração séria”, critica.

“Espero que o Ibaneis tenha a dignidade de cumprir com o que prometeu. Disse que daria prioridade para saúde, então vamos ver como vai ser”, acrescenta.

Atenção às pessoas

Quem sabe muito bem de toda a desordem é o paciente, que está na ponta do problema. Para o próximo governo, o analista de sistemas Johnatan Sette Ferreira, 37 anos, pede que o relacionamento hospital-paciente seja fortalecido, principalmente para as pessoas em situação de rua.
“Faço parte de um projeto social de acolhimento e eles reclamam bastante que não conseguem atendimento nem remédio. A população carente é a que mais precisa”, destaca. Para ele, há estrutura e pessoal suficientes para fazer esse atendimento. “A prioridade é estreitar o relacionamento com o cidadão”.

Drama do déficit de leitos

Toda a rede pública de saúde conta com 4.047 leitos gerais e 329 leitos de UTI, além de 49 contratados e 14 conveniados. Conforme a pasta, houve um superávit de 33 leitos pediátricos neste ano após a abertura de 38 leitos na UTI do Hospital da Criança. Rubens Bias, conselheiro do Núcleo do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde do DF (Cebes-DF), porém, alerta que a quantidade é insuficiente. “O número não consegue evitar que as pessoas morram por falta de assistência. E a UTI é a ponta final do sistema. Se tem muita gente procurando, é sinal que não está funcionando bem”, adverte.

A dona de casa Elizabeth Ferreira, 47 anos, sabe muito bem disso. Ela acompanha a filha, que está internada no Hospital Regional de Ceilândia (HRC) após dar à luz. “A bolsa estourou no domingo à tarde, e ela só conseguiu entrar em um hospital na segunda”, diz.

Mas, se para entrar é difícil, ela relata que se manter lá dentro também é complicado. Em cinco dias de internação, a família precisou levar lençol, cobertor, travesseiro, roupa e itens de higiene, porque nada era fornecido pela unidade de saúde. “Se não trazer de casa, não tem. Para forrar cama, eles estão usando TNT. Se tiver frio, não dão cobertor”, conta.

Dentro do hospital, a dona de casa conta que já viu paredes e vidros quebrados, bichos, como escorpião e aranha, além de objetos quebrados, como cama e cadeiras. “Não tem nenhum conforto para os pacientes, quem dirá para os acompanhantes. Para os pacientes as camas são duras e para quem é acompanhante a única coisa que tem é uma cadeira. Tudo precisa de reforma, desde o atendimento até as coisas para quem está internado”, alega.

A professora da UnB Carla Pintas culpa a burocracia. “No atendimento na assistência hospitalar, considero importante dar mais autonomia administrativa e financeira. É preciso descentralizar os recursos. Caiu o teto no hospital de Ceilândia, por exemplo, a ordem de serviço vai para a Secretaria de Saúde e o diretor fica esperando a resposta. Não tem agilidade. Cada região de saúde poderia ter o dinheiro para gastar na hora da necessidade”.

Segundo a docente, também é necessário a reorganização de estrutura física das unidades hospitalares, pois muitas delas estão sucateadas. No caso das antigas, uma manutenção não dá mais conta de resolver.

Ponto de vista

A falta de servidores também é motivo de crítica para o Sindicato dos Enfermeiros. Segundo o diretor executivo do SindEnfermeiros, Márcio da Mata, novos funcionários aliviariam a sobrecarga dos que já atuam na rede.

“É preciso levantar como prioridade a melhoria das condições de trabalho para os profissionais. O governo tem que manter o diálogo com as categorias e isso foi difícil no governo Rollemberg. O GDF tem que cumprir com a promessa de valorização dos profissionais”, pontua.

De acordo com a Secretaria de Saúde, desde 2014, mais de 10 mil profissionais, de diversas áreas, foram nomeados. No entanto, somente 7 mil tomaram posse. Não há dados oficiais sobre o déficit de servidores.

Saiba mais

Em três anos – 2015, 2016 e 2017 – foram concedidos mais de 95 mil afastamentos por motivo de saúde aos servidores da Secretaria de Saúde. Para Carla Pintas, professora de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB), é preciso repensar o perfil de cada servidor.

“Não é só fazer concurso. Não é o pagamento. São as condições de trabalho. Onde colocar, alocar melhor as pessoas? Colocar na vaga na UTI alguém com perfil da atenção básica não dá certo. A política de pessoal tem ser olhada com carinho”, sugere.

A professora também diz que é preciso pensar nos servidores que estão saindo da rede pública para a privada, aqueles que estão se aposentando e também os que se afastaram por motivo de saúde.


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