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Fim do racionamento: especialistas acham decisão precipitada

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Jéssica Antunes
jessica.antunes@grupojbr.com

A água abundante voltará às torneiras dos brasilienses em 15 de junho, quando o racionamento completará 18 meses na capital do País. A medida, tomada após a maior crise hídrica enfrentada pelo Distrito Federal, foi anunciada com base na recuperação do volume da bacia do Descoberto, que ultrapassou 90%, em estudos técnicos que indicariam segurança hídrica e na adaptação da população. Apesar de Rodrigo Rollemberg (PSB) ter convicção de que a decisão é acertada, especialistas falam em precipitação.

“Todas as projeções feitas pela Adasa com o menor nível de afluência do reservatório do Descoberto nos levam a uma projeção de ter, no menor volume, no final de novembro, algo em torno de 21,9% da capacidade do reservatório, quando já teremos a estação de chuvas e a finalização das obras de captação de Corumbá, que vai colocar 5,6 mil litros de água por segundo – metade para Goiás e metade para o DF”, informou o governador durante rápida coletiva de imprensa na manhã desta quinta-feira (3), no Palácio do Buriti.

Isso, junto com a redução de consumo da população estimado entre 12% e 13%, dos agricultores que mudaram a forma de irrigação, e das obras de captação de água concluídas e em andamento, daria, ao governo, certeza da suspensão do racionamento. “Tenho convicção que a população não retornará àquele volume de consumo diário com desperdício e uso inadequado de água. Todos nós adquirimos uma nova consciência para um uso sustentável que garanta água com qualidade e quantidade para as futuras gerações”, acredita.

O governador não explicou como ocorrerá a retomada de abastecimento integral às residências da capital. Procurada para explicar tecnicamente a forma de manejo, a Adasa informou apresentará gráficos e estudos sobre o reservatório do Descoberto na manhã de sexta-feira (4), após publicação da Resolução nº 8 no Diário Oficial do DF.

“Embora a Adasa tenha definido a data com base em estudos técnicos, que garantam a segurança hídrica e o conforto da população, e ouvido especialistas na área, vale ressaltar a importância de manter as boas práticas de uso racional e econômico da água durante o período de seca que se inicia”, informou a agência, em nota.

ESPECIALISTAS QUESTIONAM

O racionamento teve início no ápice da pior crise hídrica brasiliense, quando os índices da Barragem do Descoberto, que abastece mais da metade da capital, chegavam a 19,1% da capacidade e o de Santa Maria, a 41%. Conforme o último levantamento da Adasa, de quarta-feira (2), os sistemas mantém níveis de 90,9% e 56,4%, respectivamente. A previsão é que a capital passe pela estiagem sem grandes problemas, mas a incerteza dá o tom das opiniões de especialistas.

Pesquisador em hidrologia e coordenador do curso de Engenharia Ambiental da Universidade Católica de Brasília (UCB), Marcelo Resende considera precipitada a decisão de por fim ao racionamento. “Muitas variáveis precisam ser consideradas. E se não tivermos um bom ano de chuvas como foi o último? Acho mais prudente aguardar mais esse ano. Com obras prontas, teríamos segurança maior para acabar com o rodízio”, afirma. De acordo com o especialista, é difícil prever o comportamento climático.

A mesma opinião tem Gustavo Souto Maior, professor do grupo de estudos ambientais da Universidade de Brasília (UnB), que defende maior precaução. “Acho que o racionamento deveria continuar. Tivemos condições favoráveis que elevaram o volume dos reservatórios, mas a conta deve ser feita com base em como eles estarão ao fim do ano. Tivemos a experiência de chegar a 5%, então é preciso ver como será a seca e como se comportará a população, que obviamente vai relaxar um pouco em relação à economia”, afirma.

Maior lembra que é ano eleitoral e Rollemberg é pré-candidato à reeleição do cargo de chefe do Executivo local. “Essa atitude pode ajudar do ponto de vista político, mas a questão não pode ser tratada dessa forma. É preciso ter precaução para ver como chegar. Acredito que 21% já é pouco se comparar com anos anteriores à crise. Não se deve ter euforia agora”, opina o especialista.

HISTÓRICO DA SECA

Em 2016, a escassez de chuvas em Brasília levou a Barragem do Rio Descoberto a atingir o nível mais baixo de sua história. Responsável por abastecer 65% do DF tinha 40% da capacidade no dia 16 de setembro. Na época, a Adasa declarou estado de alerta por situação crítica e recomendou medidas para assegurar a manutenção dos recursos.

Ainda em setembro, a Caesb começou a fechar, como medida temporária, o abastecimento de algumas regiões para preservar os níveis de reservação e evitar falta de água em maior proporção. Em outubro, quando o volume de água do Rio Descoberto atingiu 24,97%, a Caesb começou a aplicar 20% de tarifa de contingência na conta de água do consumidor. O recurso foi utilizado, entre outras ações, para promover campanhas publicitárias de conscientização, intensificar a fiscalização para evitar fraudes e substituir redes com vazamento.

O rodízio no fornecimento de água foi anunciado pelo governo em janeiro de 2017 para as regiões administrativas abastecidas pela Barragem do Descoberto. Em fevereiro, a medida foi ampliada àquelas abastecidas pelo Reservatório de Santa Maria. Na época, houve correria para instalação de caixas d’água por diversas áreas e a população chegou a fazer estoque de água em grandes galões.


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